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iBebé

No artigo Mulheres: Estão num período fértil? vimos um telemóvel patenteado pela Samsung capaz de indicar o período fértil das mulheres. Já no post Mau hálito? O telemóvel dir-lhe-á. apresentámos um telefone móvel que ajuda a controlar as calorias, o ritmo cardíaco e, pasme-se, os níveis de mau hálito.
E quando julgava que isto já era sui generis que bastasse, eis que leio um artigo no Expresso on-line intitulado «Já nasceu o primeiro ‘iBaby’ britânico». Ora leiam:

Lena Bryce, de 30 anos, e o seu parceiro Dudley, de 31, estavam quase convencidos de que nunca conseguiriam ter filhos, tal era o desespero de ambos ao cabo de quatro anos de tentativas infrutíferas de fecundação. [...]

Porém, uma aplicação para o iPhone ajudou, em apenas dois meses, Lena e Dudley a conceberem um bebé. [...]

[... O] Free Menstrual Calender (calendário menstrual grátis), terá acabado por ser responsável pela gravidez tardia. Lena introduziu os detalhes do seu ciclo menstrual e recebeu da aplicação instalada no iPhone a indicação dos cinco dias mais férteis do seu ciclo.

Dudley e Lena nem queriam acreditar quando descobriram que a gravidez estava confirmada. Lena teve a sua filha, de nome Lola, num hospital em Glasgow na sexta-feira passada, o exacto dia em que aplicação previu que o parto devia acontecer.

Não é de admirar, por isso, que Lola seja agora referida nos media britânicos como ‘iBaby’, ‘iPhone baby’ ou ‘App Baby’ (uma referência às aplicações para smartphones).

É muito iJogo

Grande parte do sucesso da Apple reside no marketing que desenvolve com mestria. No post Apple: Marketing e Usabilidade, vimos alguns dos segredos do marketing da Apple segundo um documento escrito por Steve Chazin, um antigo colaborador da empresa da maçã. Outro vector fulcral do êxito da máquina de Steve Jobs neste sector está no facto de toda a estrutura Apple falar a mesma linguagem, respeitando a peça mais importante no xadrez do marketing: o cliente.
E a empresa norte-americana prepara-se para lançar um novo produto. E já se fala disso há muito tempo. E promete ser mais um objecto de desejo. E a imprensa mundial ajudará na promoção. (Ora reparem neste artigo da edição on-line do jornal i.) É muito jogo!

Li no grande blogue Invisible Red sobre uma acção recente da cadeia de restaurantes de fast-food McDonald’s. Fantástica, criativa e original. Diz-nos o artigo «McDonald’s Angus Burger» do blogue supracitado:

Para divulgar os seus novos Angus Burgers, a McDonald’s de Puerto Rico utilizou a fumaça que saia do grill como media. Além do aroma característico da carne grelhada, a fumaça serviu como suporte para projecções que divulgavam a nova oferta da rede. [...]

Numa altura em que cada vez mais a desconfiança dos consumidores nas estratégias tradicionais de marketing aumenta, importa criar acções diferentes. Ora atentem no clipe. Muito bom.

Sou um fervoroso adepto da boa cozinha portuguesa. Sou mesmo capaz de percorrer dezenas ou mesmo centenas de quilómetros para degustar uma especialidade qualquer, visitar um desses templos repastantes que aqui e ali ainda se vão encontrando. Quando gosto, fico fiel cliente, recomendando e publicitando junto dos meus amigos e parceiros, alguns desses locais de eleição.
Nos meus périplos gastronómicos haviam até há pouco tempo três templos que visitava com regularidade quase monástica. A Bordo com o Carlos em Benagil – Lagoa, A Taberna da Maré em Portimão e a Taberna A Cavalariça em Entradas.
De uma penada e um atrás de outro fecharam estes meus locais de eleição, deixando-me órfão, obrigando-me a procurar outras paternidades gastronómicas.
A Cavalariça fechou a sua centenária e linda taberna, local de convívio de Entradenses e forasteiros, mantendo aberto o restaurante o que sendo uma, não é a mesma coisa.
O meu amigo Carlos resolveu dar fim à sua actividade restaurativa, não só pelo cansaço dos anos a que às comezainas se dedicou. Durante esses anos tratou por “inhos” os mimos com que nos brindava, nunca se esquecendo de relatar a proveniência de tão raras iguarias, quase sempre das fraldas da Serra de Monchique ou do Alentejo profundo que tanto ama, mas aproveitou a incapacidade de se adaptar às novas regras das novíssimas brigadas de costumes que o visitaram e lhe exigiram um rol de alterações que este depois de ponderados prós e contras, decidiu-se pelos contras e mandou-os dar uma volta ao bilhar grande.
Na Taberna da Maré do amigo Zeca aprendi a degustar as coisas divinalmente simples da cozinha algarvia, com especial relevância para os pratos marítimos, não fosse esta pequena taberna estar ali à babujem do rio Arade onde em tempos não tão distantes como isso, aportavam as traineiras, cujos mareantes descarregavam o pescado vivo com as suas canastras de vime…
Um belo dia do ano passado (mais ou menos por esta altura do ano), fui almoçar à Taberna da Maré. Aí chegado dou com o edifício onde esta se insere completamente de pantanas. Pensei que também este pequeno templo da boa gastronomia algarvia tinha sucumbido à voragem duma modernidade, que pelo menos a mim já me vai revoltando as tripas.
Fiquei a saber que o Zeca tinha decidido entrar em obras. Talvez exigências da ASAE ou coisa que o valha… pensei para com os meus botões, mas sempre com a sensação de que melhoramentos neste tipo de casas, são regra geral sinónimo de descaracterização. Quando as obras terminaram, e mesmo já passado o Verão de 2008 regressei a este templo gastronómico, o passo com que o fiz denunciava algum receio do que iria encontrar. Aí chegado reparei que estava tudo igual, tudo na mesma com alguns melhoramentos é um facto, mas em vez de uma taberna o Zeca tinha construído duas tabernas, com o mesmo gosto que o celebrizou, com a mesma decoração de taberna ribeirinha. As fotos antigas dum mestre fotógrafo local, são um elogio à sensibilidade de quem olha com olhos de ver e congela momentos da faina beira-rio, das profissões ou mesmo apenas e tão só, a expressão num rosto sulcado pelo sal e pelo sol. A comida continuava divinal.
O Zeca, não só nos apaparica com estas ancestrais receitas, que nas alquimistas mãos de sua mãe ganham adjectivos de magia, como também nos alimenta o pavilhão auditivo com pérolas musicais da música portuguesa que tanto pode ser de agora como de outras épocas, mas deixando no ar a sensação de que os ouvidos do comensal também merecem ser alimentados.

Fica no ar o meu secreto desejo de um destes dias ser surpreendido com a reabertura da Cavalariça, ainda que reaproveitada noutros moldes, mas sempre espaço de convívio e da alma Entradense, que para algumas pessoas é coisa sem importância, mas para outros poderia ser o renascer de um novo ciclo que Entradas já viveu e que tão bons frutos deu.
Do Carlos espero sempre um telefonema, que tanto pode ser para almoçar com ele na tasca mais recôndita que descobriu, como pode ser um convite para a inauguração de um novo espaço onde o seu dedo e a sua paixão pelas iguarias com a chancela de “produto natural”. Um destes dias aí o teremos com o seu inseparável lenço de seda ao pescoço, sobre os ombros o seu blazer de capitão e para compor o ramalhete o seu famoso assobio que soa a serrote de palhaço rico em dia de actuação circense.

Na feira

Nos tempos que correm, a Feira de Castro, em Castro Verde, é provavelmente a única onde ainda se encontram mantas, safões e pelicas, varejos e escadas para a azeitona, bancos para malas, tábuas de estender massa, tabuleiros para o pão, pás de forno, cadeiras, etageres, camilhas e outros artefactos de madeira que fazem a delicia dos novos visitantes.
De entre as manobras clássicas de uma viagem à feira, não podia deixar de recomendar vivamente uma refeição num dos restaurantes ambulantes. Não o digo pela qualidade da comida ou do serviço, mas pela viagem que fazemos aos nossos sentidos.
Do vasto cardápio podemos eleger frango assado ou, caso não apreciemos… frango assado!! Enquanto agarrados à perna, asa ou peito do bicho, presenciamos o caudal deste mar de gente que acode ano após ano à feira, ao mesmo tempo que ouvimos o estridente e inevitável relato do speaker de serviço da atracção que dá pelo nome de poço da morte: enquanto o artista rola uma velha e barulhenta moto sobre dois rolos, o locutor apela ao visitante que assista ao espectáculo.

- Suba, suba, já faltam poucos minutos para começar. Venha assistir a este deslumbrante espectáculo. Coragem, arrojo e total desprezo pela vida [neste momento o motociclista retira as mão do guiador e sobe a pés juntos para o assento imitando a figura de Cristo]. Suba e veja com os seus olhos o maior espectáculo do mundo… suba… suba!!

Direccionando o ouvido mais para a esquerda, ouvimos o inevitável vendedor de cobertores e outras bugigangas (com que vai carregando o ajudante), que custam em qualquer lado, segundo as suas palavras, cinco ou dez vezes mais do que ali.

- Porque compramos directamente às fábricas da Covilhã. Porque não temos lojas chiques, nem empregados pagos a preço de ouro. Só temos este aqui, com cama, mesa, roupa lavada, mulher para dormir e enxada para cavar [nota de humor].
Cinco dedos temos na mão senhoras e senhores, e nenhum é igual [verdade inquestionável]. Aqui não paga mil, nem novecentos, nem oitocentos, nem sequer quinhentos, e para quem tiver quatrocentos, para além destes cinco cobertores, mais o jogo de cama, ainda leva este magnifico faqueiro, um guarda chuva automático porque na feira sempre chove, etc., etc.

Este e outros discursos “da banha da cobra” ilustram a paisagem sonora da feira, o que enriquece o momento. Quando termina, deixa sempre uma sementinha que demora um ano a germinar e que, a cada ano que passa aqui a vimos de novo plantar.
Esta é sempre uma altura do ano em que se estabelecem comparações: “dantes é que era”; ”vinha gente de todo o lado”;as barracas de bebidas plantadas á beira da estrada da saudosa feira de Entradas, só se levantavam depois da Feira de Castro”. Aí não era raro cantar-se ao despique até a manhã raiar. Os mais velhos recordam uma tal Zéfinha cantadeira que bebia vinho e aguardente que nem um homem enquanto dava o mote referente ao momento:

Ó Castro se fores à feira
Trás-me de lá um assobio
Ou de lata ou de madeira
Trás-me de lá um assobio
Ó Castro se fores à feira

Já que estamos em maré de recordações, havia um velho da minha terra que dizia: “ao Madeirinha do Monte dos Merendeiros quando lhe perguntavam porque não trazia a mulher à feira, ele respondia: – Então pra quem!? Divirto-me pela metade e gasto o dobro!”.
Este personagem gostava tanto desta feira, que o seu pai, quando por ele lhe perguntavam, sempre dizia: “Enquanto ‘tiver um pau tanxado, para o meu filho a feira não acaba”.

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