Sou um fervoroso adepto da boa cozinha portuguesa. Sou mesmo capaz de percorrer dezenas ou mesmo centenas de quilómetros para degustar uma especialidade qualquer, visitar um desses templos repastantes que aqui e ali ainda se vão encontrando. Quando gosto, fico fiel cliente, recomendando e publicitando junto dos meus amigos e parceiros, alguns desses locais de eleição.
Nos meus périplos gastronómicos haviam até há pouco tempo três templos que visitava com regularidade quase monástica. A Bordo com o Carlos em Benagil – Lagoa, A Taberna da Maré em Portimão e a Taberna A Cavalariça em Entradas.
De uma penada e um atrás de outro fecharam estes meus locais de eleição, deixando-me órfão, obrigando-me a procurar outras paternidades gastronómicas.
A Cavalariça fechou a sua centenária e linda taberna, local de convívio de Entradenses e forasteiros, mantendo aberto o restaurante o que sendo uma, não é a mesma coisa.
O meu amigo Carlos resolveu dar fim à sua actividade restaurativa, não só pelo cansaço dos anos a que às comezainas se dedicou. Durante esses anos tratou por “inhos” os mimos com que nos brindava, nunca se esquecendo de relatar a proveniência de tão raras iguarias, quase sempre das fraldas da Serra de Monchique ou do Alentejo profundo que tanto ama, mas aproveitou a incapacidade de se adaptar às novas regras das novíssimas brigadas de costumes que o visitaram e lhe exigiram um rol de alterações que este depois de ponderados prós e contras, decidiu-se pelos contras e mandou-os dar uma volta ao bilhar grande.
Na Taberna da Maré do amigo Zeca aprendi a degustar as coisas divinalmente simples da cozinha algarvia, com especial relevância para os pratos marítimos, não fosse esta pequena taberna estar ali à babujem do rio Arade onde em tempos não tão distantes como isso, aportavam as traineiras, cujos mareantes descarregavam o pescado vivo com as suas canastras de vime…
Um belo dia do ano passado (mais ou menos por esta altura do ano), fui almoçar à Taberna da Maré. Aí chegado dou com o edifício onde esta se insere completamente de pantanas. Pensei que também este pequeno templo da boa gastronomia algarvia tinha sucumbido à voragem duma modernidade, que pelo menos a mim já me vai revoltando as tripas.
Fiquei a saber que o Zeca tinha decidido entrar em obras. Talvez exigências da ASAE ou coisa que o valha… pensei para com os meus botões, mas sempre com a sensação de que melhoramentos neste tipo de casas, são regra geral sinónimo de descaracterização. Quando as obras terminaram, e mesmo já passado o Verão de 2008 regressei a este templo gastronómico, o passo com que o fiz denunciava algum receio do que iria encontrar. Aí chegado reparei que estava tudo igual, tudo na mesma com alguns melhoramentos é um facto, mas em vez de uma taberna o Zeca tinha construído duas tabernas, com o mesmo gosto que o celebrizou, com a mesma decoração de taberna ribeirinha. As fotos antigas dum mestre fotógrafo local, são um elogio à sensibilidade de quem olha com olhos de ver e congela momentos da faina beira-rio, das profissões ou mesmo apenas e tão só, a expressão num rosto sulcado pelo sal e pelo sol. A comida continuava divinal.
O Zeca, não só nos apaparica com estas ancestrais receitas, que nas alquimistas mãos de sua mãe ganham adjectivos de magia, como também nos alimenta o pavilhão auditivo com pérolas musicais da música portuguesa que tanto pode ser de agora como de outras épocas, mas deixando no ar a sensação de que os ouvidos do comensal também merecem ser alimentados.
Fica no ar o meu secreto desejo de um destes dias ser surpreendido com a reabertura da Cavalariça, ainda que reaproveitada noutros moldes, mas sempre espaço de convívio e da alma Entradense, que para algumas pessoas é coisa sem importância, mas para outros poderia ser o renascer de um novo ciclo que Entradas já viveu e que tão bons frutos deu.
Do Carlos espero sempre um telefonema, que tanto pode ser para almoçar com ele na tasca mais recôndita que descobriu, como pode ser um convite para a inauguração de um novo espaço onde o seu dedo e a sua paixão pelas iguarias com a chancela de “produto natural”. Um destes dias aí o teremos com o seu inseparável lenço de seda ao pescoço, sobre os ombros o seu blazer de capitão e para compor o ramalhete o seu famoso assobio que soa a serrote de palhaço rico em dia de actuação circense.
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