21
Jan 10

Na feira

Nos tempos que correm, a Feira de Castro, em Castro Verde, é provavelmente a única onde ainda se encontram mantas, safões e pelicas, varejos e escadas para a azeitona, bancos para malas, tábuas de estender massa, tabuleiros para o pão, pás de forno, cadeiras, etageres, camilhas e outros artefactos de madeira que fazem a delicia dos novos visitantes.
De entre as manobras clássicas de uma viagem à feira, não podia deixar de recomendar vivamente uma refeição num dos restaurantes ambulantes. Não o digo pela qualidade da comida ou do serviço, mas pela viagem que fazemos aos nossos sentidos.
Do vasto cardápio podemos eleger frango assado ou, caso não apreciemos… frango assado!! Enquanto agarrados à perna, asa ou peito do bicho, presenciamos o caudal deste mar de gente que acode ano após ano à feira, ao mesmo tempo que ouvimos o estridente e inevitável relato do speaker de serviço da atracção que dá pelo nome de poço da morte: enquanto o artista rola uma velha e barulhenta moto sobre dois rolos, o locutor apela ao visitante que assista ao espectáculo.

- Suba, suba, já faltam poucos minutos para começar. Venha assistir a este deslumbrante espectáculo. Coragem, arrojo e total desprezo pela vida [neste momento o motociclista retira as mão do guiador e sobe a pés juntos para o assento imitando a figura de Cristo]. Suba e veja com os seus olhos o maior espectáculo do mundo… suba… suba!!

Direccionando o ouvido mais para a esquerda, ouvimos o inevitável vendedor de cobertores e outras bugigangas (com que vai carregando o ajudante), que custam em qualquer lado, segundo as suas palavras, cinco ou dez vezes mais do que ali.

- Porque compramos directamente às fábricas da Covilhã. Porque não temos lojas chiques, nem empregados pagos a preço de ouro. Só temos este aqui, com cama, mesa, roupa lavada, mulher para dormir e enxada para cavar [nota de humor].
Cinco dedos temos na mão senhoras e senhores, e nenhum é igual [verdade inquestionável]. Aqui não paga mil, nem novecentos, nem oitocentos, nem sequer quinhentos, e para quem tiver quatrocentos, para além destes cinco cobertores, mais o jogo de cama, ainda leva este magnifico faqueiro, um guarda chuva automático porque na feira sempre chove, etc., etc.

Este e outros discursos “da banha da cobra” ilustram a paisagem sonora da feira, o que enriquece o momento. Quando termina, deixa sempre uma sementinha que demora um ano a germinar e que, a cada ano que passa aqui a vimos de novo plantar.
Esta é sempre uma altura do ano em que se estabelecem comparações: “dantes é que era”; ”vinha gente de todo o lado”;as barracas de bebidas plantadas á beira da estrada da saudosa feira de Entradas, só se levantavam depois da Feira de Castro”. Aí não era raro cantar-se ao despique até a manhã raiar. Os mais velhos recordam uma tal Zéfinha cantadeira que bebia vinho e aguardente que nem um homem enquanto dava o mote referente ao momento:

Ó Castro se fores à feira
Trás-me de lá um assobio
Ou de lata ou de madeira
Trás-me de lá um assobio
Ó Castro se fores à feira

Já que estamos em maré de recordações, havia um velho da minha terra que dizia: “ao Madeirinha do Monte dos Merendeiros quando lhe perguntavam porque não trazia a mulher à feira, ele respondia: – Então pra quem!? Divirto-me pela metade e gasto o dobro!”.
Este personagem gostava tanto desta feira, que o seu pai, quando por ele lhe perguntavam, sempre dizia: “Enquanto ‘tiver um pau tanxado, para o meu filho a feira não acaba”.

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