Nuno Markl percebe da poda
Mai 12th, 2008 por Helder Encarnação
Quando me foi solicitado que indicasse onde me inspiro para a elaboração dos posts deste meu espaço virtual, referi, entre outros, a importância dos blogues que não falam de marketing. Para mim, são de facto tão úteis quanto os que são sobre a matéria que neste cantinho se debate. Gosto de ler nas entrelinhas e descortinar pontos de vista que possa utilizar cá no estaminé.
E hoje dei de caras com um post do grande Nuno Markl (estou neste momento a fazer-lhe uma vénia) que tem tanto de marketing como daquele humor extraordinário com que habitualmente nos presenteia.
Eis o excerto-quase-cópia-integral da entrada Crítica: Sumol de Morango do seu blogue Há Vida em Markl, que tem tudo a ver com marketing:
A indústria dos refrigerantes e a nossa própria relação de seres humanos com a fruta veio criar estranhas verdades na nossa mente, verbalizadas de forma consistente pela funcionária do supermercado que me atendeu na caixa. Dizia ela, enquanto registava a fascinante garrafa na máquina: “Tenho vontade de experimentar isto, mas é estranho. Laranja com gás, tudo bem. Agora morango…” Concordei, com a convicção de quem tem a certeza que a fruta já vem da laranjeira com o gás dentro. Morango com gás? Freak. Laranja com gás? Perfeitamente normal. […]
No rótulo, utilizam-se as palavras “EDIÇÃO ESPECIAL”, seguindo uma tendência recente de outros tipos de sumo. A palavra “edição” remete o produto para a área da cultura, proporcionando ao consumidor mais bronco a sensação mais próxima que ele terá de comprar um livro. Se alguém lhe perguntar o que é que ele anda a ler, esse consumidor poderá responder, confiante, “o Sumol de morango”. Não estará a mentir, porque há muito que ler no rótulo desta bebida, nomeadamente isto:
Ah! O perfeito tie-in: Sumol de morango, Morangos com Açúcar. Ainda bem que o acordo foi com a TVI e não com a SIC: se morangos com gás é bizarro, flores com gás seria francamente perturbante. A garrafa anuncia a possibilidade de jantarmos com os Morangos com Açúcar, num concurso que, sublinha-se, é exclusivo para Portugal. Acredito que sim: só ter de pagar o jantar àquela malta toda dos Morangos já deve ser uma maçada para a Sumol; ainda por cima ter de pagar a viagem a um islandês qualquer para vir jantar com a malta dos Morangos - impraticável. Devo dizer que estes prémios “jantar com” não são grande espingarda. […]
Para que é que uma pessoa há-de querer uma reprodução rigorosa de fruta dentro de uma garrafa se pode, facilmente, comer morangos reais? Um gourmet de refrigerantes não protesta contra o artificialismo da bebida. Aceita-o. Regozija-se com ele. Chafurda nele (esta parte já é capaz de deixar um indivíduo peganhento; é melhor não). Ninguém vai a um restaurante à espera de comer aquilo que pode facilmente comer em casa. Da mesma forma, ninguém avança para um refrigerante à espera de ingerir fruta fresca acabada de colher da árvore.
Espectacular! ![]()
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