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Por vezes, para que o seu marketing seja um sucesso, basta simplesmente tornar as coisas especiais. Dar-lhes valor. Contar uma história em torno delas. Acreditar nelas. Desenvolver bons produtos. Ele há muitos marketers que se preocupam exageradamente com os P’s e esquecem-se que o marketing-mix não explica tudo e, para mais, já não é o que era. Complicam quando deveriam simplificar.
Se toda a sua concorrência estiver a tomar decisões ponderadas, planificadas até ao mais pequeno pormenor, não seja igual a eles. Ouse ser diferente. Talvez parte do problema resida em todos agirem do mesmo modo.
Se os colaboradores da sua empresa não acreditarem no que vendem ou no serviço que prestam, as hipóteses de sucesso são, sem surpresa, próximas de zero.

Há mais de dois anos, no post Creme facial com extractos de tabaco, vimos a então mais recente campanha da União Europeia para o combate ao tabagismo, apoiada no conceito HELP – Por uma vida sem tabaco. Tratava-se da site Nico Market, uma falsa loja on-line que vendia fabulosos artigos como uma pasta de dentes que escurecia os dentes, um spray para a garganta que provocava rouquidão, um creme para o rosto que deixava a pele suja e sem brilho (era o Nicoclean, o tal creme facial com extracto de tabaco) e ambientadores com fragrância a cigarro, cachimbo ou charuto.
A loja on-line tinha inclusive um carrinho de compras que, quando chegávamos ao checkout, mostrava-nos a mensagem:

Está com sorte, estes produtos não estão disponíveis.
Para ter uma vida sem tabaco, vá a www.help-eu.com.

Pelos vistos a Nico Market fechou as suas portas. Não sei há quanto tempo. Não obstante, a campanha HELP – Por uma vida sem tabaco continua bastante criativa. Vale uma visita.

Estava eu a pensar na velocidade a que as mudanças acontecem, que sem querer me começo a dar conta de que para mim podem parar por aqui.
Já presenciei, já vivi mutações tão significativas, tão marcantes, ricas e influentes que já não tenho “cabedal” nem paciência para acompanhar as revoluções diárias a que vamos assistindo.
As novas gerações que agora tomam conta do aparelho são gente doutra estirpe, que respeito, algumas até admiro, mas que me são cada vez mais difíceis de compreender.
Sou cada vez mais um bicho solitário que vai perdendo amigos por via da morte, por via da distância, por via da falta de paciência ou porque sou cada vez mais um animal que se abriga na sua concha e ali fica a observar as transformações que o mundo sofre a cada dia que passa.

Estava eu no outro dia num bar em Lisboa quando um amigo me perguntou se já tinha Twitter. Disse que não, coisa que o fez agigantar-se e de imediato olhar-me de cima para baixo como se eu fosse um ser insignificante sem o mínimo interesse.
Ainda me falou das enormes vantagens de estar ligado naquele sistema instantâneo onde o mundo inteiro sabe de imediato o que estás a fazer e a pensar. Rebati os argumentos só mesmo para alimentar as bebidas que ingeríamos, ao mesmo tempo que interiormente ruminava pensamentos outros, daqueles que sei serem decisórios para a minha vida.
Hoje leio num jornal (um jornal tradicional!) que uma mãe anunciou ao mundo a morte do filho (no momento em que este perecia!) através do Twitter. Fiquei estarrecido e lembrei-me da conversa tida há cerca de um ano naquele bar em Lisboa com aquele meu amigo (se é que ainda o é!) em que ele me dava conta das vantagens desta ferramenta. Rio-me para dentro, dobro o jornal e sigo o meu caminho e penso para onde nos leva este ”admirável mundo novo”.

Pelo caminho ainda penso naquele meu conterrâneo do fax, que vivendo lá na sua santa ignorância será seguramente muito mais feliz que a maioria de nós!

* Só me resta dizer que estás a ler isto num blogue, uma ferramenta fruto do mundo que confronto.

Mas quem é que disse que não sou um ser cheio (mesmo a abarrotar!) de contradições.

Existem invenções que perduram no tempo e outras que têm um período de vida, tornando-se obsoletas aquando da invenção da sua substituta. Isto transporta-me de novo à minha terra, e neste registo de “admirável mundo novo” para ser de novo confrontado com uma situação que me deixou algo perplexo, confuso até!
Passeando pelas aforas da vila, dirigi-me para as bandas do cemitério que estando de porta aberta é sempre um convite irresistível para nele entrar.
Ao fundo e meio imerso na cova que abria Ti Manel Russo (o coveiro!) saúda-me efusivamente e em ar de brincadeira diz-me: enquanto for abrindo a dos outros, a coisa não está mal – referindo-se ao seu trabalho solitário.
Este meu conterrâneo (entretanto falecido há uns quatro anos!) era um exímio contador de estórias, lengalengas, intermináveis contos de cariz medieval com castelos, princesas e tudo; portanto, portador, fiel depositário de todo um espólio de tradição oral que com ele partiu no dia em que desceu à terra.
Estava ele já nas últimas sacholadas, quando lá do fundo da cova se solta uma zoada estridente, irritante até, misturado com o som surdo e sincopado da enxada penetrando na terra, retirando a cada cavadela uma fatia da mesma que mais tarde serviria para cobrir a última morada dum Entradense por essa hora chorado pelos seus entes.
O tal som era o toque de entrada de chamada do telemóvel do Ti Manel Russo que fazendo uma pausa na cavação atendeu lá do fundo da cova com um “TôXim” muito em voga naqueles tempos.
Dou então comigo a pensar no simbolismo daquele quadro em que um vivo cava a cova para um seu “irmão” morto com uma das primeiras ferramentas inventadas pelo homem, e na outra mão uma das últimas, a que foi dado o nome de: telemóvel!
Estas duas ferramentas, cada uma a seu tempo, vieram revolucionar a vida do ser humano. O telemóvel, todos sabemos porquê, mas a enxada, a determinado momento, também terá sido a ferramenta que desbravou o caminho para este “admirável mundo novo”.

Há muito tempo, mas não assim tanto como isso, Portugal era um país parado no tempo, coisa que assim de repente parece impensável, mas que tinha as suas vantagens. Por exemplo, a palavra inflação não era uma palavra, era um palavrão de que só os mais instruídos haviam ouvido falar.
Era no tempo em que os produtos levavam o preço no fim do nome de tanto se manterem inalteráveis. Havia o pão de 17, o copo de 2 e de 3, no eléctrico havia o bilhete de 4 e de 7 (tudo em tostões!), e por aí fora.
A vidinha (porque apesar da garantia do preço do panito, aquilo não era vida!), corria direitinha, educadinha e cinzentinha com a sua cunhazita aqui, a sua prisãozita acolá, a sua deportaçãozeca mais além. Tudo muito “ito”, muito “zeca”, muito” inho” como convém a uma sociedade governada por um déspota já em senilidade avançada que caiu de podre como cai tudo o que não tem renovação ou mesmo manutenção.
Deste mundo saltámos quase sem dar por isso (apenas com uma revoluçãozeca pelo caminho!) para um admirável mundo novo, onde tudo acontece na vertigem do momento, o que a meu ver terá as suas contra-indicações.
Estava-me aqui a lembrar dum episódio que me aconteceu na minha terra natal há poucos anos. Talvez uns dez!
Tive necessidade de confirmar uns documentos que não tinha em minha posse e disse à pessoa que os queria ver que os faria chegar em minutos via fax para que visse com os seus próprios olhos. Alguém me chamou de lado e perguntou-me com ar preocupado como se eu tivesse enlouquecido de vez; como é que era possível fazer chegar a documentação em poucos minutos e o que era isso de fax!
Ora quando este episódio aconteceu já a invenção fax estava a dar as últimas, concluindo eu que aquela gente que habita o mesmo país que eu, que supostamente teriam acesso a este tipo de conhecimento, desconheciam a existência deste aparelho, que por acaso estava em fim de vida começando rapidamente a ser substituído pelo e-mail, coisa que nem tive coragem de mencionar.

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