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Retrosaria Elegante

Venho hoje apresentar-vos uma loja saída de um qualquer cenário dos anos trinta do século passado e a que ternamente chamei “Retrosaria Elegante” que descobri em Borba e que é um daqueles locais “que não existem”.
O tempo por ali há muito que congelou, quer: pessoas, décor e artigos, por isso decidi-me hoje de convosco partilhar a história de Joaquim Manuel Grego um dos primeiros e com certeza o último dos retroseiros tradicionais de Borba.

Já ali havia estado em 2007 e com este simpático comerciante havia entabulado interessante conversa, desta vez ia decidido a saber mais, caso a casa ainda se mantivesse aberta, o que se veio a verificar, e mesmo tendo o senhor Grego sofrido recentemente um AVC, este resistente tem na verdade o espírito do último dos moicanos.
Joaquim Manuel Grego, conta com 82 anos, 69 dos quais passados atrás daquele mesmíssimo balcão onde agora o confronto com a dolorosa questão do tempo que lhe resta, que de resto, este encara com a naturalidade dos ciclos que inexoravelmente hão-de um dia terminar.
Começou aqui aos 13 anos na loja de seu tio em 1939. A Retrosaria Elegante era uma casa moderna e que servia tanto as melhores clientelas de Borba e arredores, como também atendia e por vezes acudia aos mais pobres e desfavorecidos, e assim neste ambiente solidário e democrático foi este estabelecimento construindo o seu trajecto e granjeando a fama que o trouxe até aos dias de hoje.
Joaquim Manuel tornou-se sócio da Retrosaria nos idos anos de 1954 e após o falecimento de seu tio há mais de 30 anos que dirige sozinho os destino deste peculiar estaminé.
Mas falemos um pouco do espaço físico que irão aqui encontrar caso pretendam visitar o senhor Grego, coisa que este seguramente agradece.
A retrosaria está situada na parte velha de Borba, junto ao largo principal numa das ruelas que a esse largo vão desembocar.
Quando se entra no antiquíssimo estabelecimento sente-se o choque que só as coisas imutáveis nos proporcionam.
A montra amarelecida há muito que apresenta o mesmo rol de provectas novidades de uma indeterminada estação do ano.
Ao fundo e fora do balcão um razoável cabide corrimão comporta um sem número de casacos, sobretudos e gabardinas empoeirados assim à laia dos vinhos valiosos em estabelecimento da especialidade, se é que consigo por palavras traduzir o poeredo que por ali vai.
Nas costas do Senhor Joaquim Manuel, amplas prateleiras envidraçadas estão pejadas de peças de fazenda e cortes de fato dos mais variados padrões e classes há muito ali emprateleirados.
Múltiplas caixas de botões, cada uma delas com o seu botanito exemplar pregado na frente da mesma, fechos, agulhas, linhas e mais sei lá quantos produtos são o espólio e o décor deste singular estabelecimento, onde o sorriso do proprietário irradia a luz e simpatia comercial cinzeladas pela experiência de múltiplas gerações de clientes que lhe atravessaram a porta.
À pergunta, de como ia o negócio respondeu-me – tem semanas que não vendo um botão!
Compadeci-me com as agruras deste comerciante e logo ali me comprometi a adquirir um ou mais produtos de que gostasse.
Reparei numa caixa de sapatos que pelo amarelecido do tempo, pelo desenho promocional denotava ser coisa do tempo da minha meninice.
Abrimos a caixa que continha um par de sapatos de senhora. Procurei uma que tivesse o tamanho de uns pés de agora, já que o stock andava pelos 34 e 35’s. Depois de muito vasculhar encontrei uns 38 e disse-lhe que eram esses que iria levar, mais pela caixa que pelos sapatos.
Olhou para mim, e voltou a perguntar se não estava a brincar. Com os sapatos na mão, que eram feitos de finas matérias cabedalisticas disse-me que o preço de tal raridade era 4 euros – nem sequer regateei o preço conforme esperava o expedito comerciante.
Paguei a quantia acordada. Com o dinheirinho no bolso, o Senhor grego disse-me então:
- Agora que já tenho o seu dinheiro na minha algibeira, vou-lhe dizer quanto me custaram estes sapatos.

A caixa tinha no fundo um código em letras que ele decifrou. Olhou para mim e confessou ter feito um excelente negócio, até porque só tinha pago 100 escudos pela mercadoria e havia-a vendido pelo equivalente a 800 escudos, só que se esqueceu que o pagamento tivera lugar em 1968 (altura em que adquiriu a mercadoria conforme me provou) e o resgate do investimento deu-se 40 anos depois.
O Senhor Grego afirmou-me ter feito um excelente negócio. Pela minha parte, para além de um amigo, fiz com que o homem se sentisse um pouco mais feliz.

Chegado a Entradas mostrei os sapatos à minha irmã. Experimentou-os e perguntou-me se lhos queria vender. Ofereci-lhos, não sem ela me dizer que aqueles sapatos, daquela qualidade não custariam menos de 80 a 100 euros em qualquer sapataria da moda.
Afinal, parece todos fizemos um excelente negócio.
Como à terceira visita se entra na categoria dos “clássicos”, se para o ano a Retrosaria Elegante ainda estiver aberta e o senhor Grego continuar de saúde, juro que lhe compro outros artigos e desta repetição de gestos e actos, vamos construindo rituais e ciclos que pretendemos que perdurem no tempo. Para o caso presente em 2009 entrará na categoria dos “clássicos” uma visita a Borba e por consequência à Retrosaria Elegante.

Post publicado originalmente no Pulanito

No ano de 2005, a Coca-Cola Zero é apresentada nos Estados Unidos. Em Maio de 2007 a marca lança este novo produto em Portugal. Lembro-me de ter pensado qual seria a diferença entre a recente Zero e a velhinha Light. Ambas não contêm açúcar; são utilizados adoçantes artificiais para o substituir. Ambas têm sensivelmente a mesma quantidade de calorias. Então qual a diferença entre elas? Pelos vistos, segundo este artigo da Wikipedia, a Zero é baseada na fórmula da versão normal do refrigerante, ao contrário da Light. Ou seja, a Zero tem o mesmo sabor da Coca-Cola.

Então, lá está:

Se Coca-Cola Zero tem gosto de Coca-Cola, então pode existir alguém por aí que é igualzinho a você. É com essa descrição que começa o “Facial Profiler”, uma ferramenta integrada ao Facebook que, através de uma foto sua, procura pessoas com a sua cara.

O aplicativo, que foi anunciado no início de outubro [...] parte do princípio da mesma tecnologia que a polícia utiliza para localizar rostos em meio a multidões.

Você pode utilizar uma foto sua já no Facebook, ou então fazer upload de uma nova. Após um breve rastreamento, o resultado mais próximo é apresentado. Se quiser, você ainda pode entrar em contato com o seu clone desconhecido.
[...]
A criação é da Crispin Porter + Bogusky, que pede a sua ajuda para votar nas semelhanças mais acuradas, e assim refinar o sistema do “Facial Profiler”.

Lido no artigo «Coca-Cola Zero finalmente lança seu aplicativo “Facial Profiler”» do Brainstorm #9.

Fastóbife!

Quero compartilhar convosco uma série de nomes interessantes referentes a negócios das mais variadas áreas, que vão, do alimentar aos serviços, passando pelo mobiliário, terminando no centro de cópias.
Na verdade quem se dá ao trabalho de escolher uma destas denominações, só pode ser pessoa com excelente sentido de humor.
A fotografia aqui apresentada, foi por mim tirada há uns anos em Armação de Pêra ao talho “Fastóbife”, onde passei a ser cliente habitual, primeiro pelo achado do nome e depois pela simpatia e qualidade da carne. Um dia passei por lá e a porta estava fechada e nunca mais reabriu, fica para a memória o mais bonito dos nomes que se pode atribuir a um talho.Fastobife
Outro nome que perdura agora na voz de um rapper da nossa praça é o de “Frango Sinatra” saudosa churrasqueira da margem sul, mais propriamente no Laranjeiro, que nunca tive a felicidade de conhecer e, pelos vistos, jamais terei, porque entretanto também encerrou, mas cujo nome é também outra pérola entretanto aproveitada pelo tal madniga.
Existem por esse Portugal fora nomes que pelo seu duplo significado, pelo humor que encerram ou mesmo por curiosa capacidade criativa merecem constar aqui no nosso quadro de honra que, gostaria de ver acrescentado por vossa intervenção com nomes que achem interessantes e que façam “pandan” com os aqui apresentados.

Fastóbife: Nome de talho (Armação de Pêra – entretanto falecido)
Frango Sinatra: Churrasqueira (Laranjeiro – entretanto falecido)
Mobidoc: Mobiliário para escritório – Lisboa – Continua no activo
Ás de Cópias: Centro de Cópias – desconheço a localidade e se está no activo
Creche e Aparece: Infantário – Inventei há pouco, ainda não foi utilizado
Vá Roupa – Boutique – Nome que retenho há muito, mas que achei engraçado para um estabelecimento desta natureza.

Post publicado originalmente no Pulanito

Naquela tarde percorremos quase todas as sapatarias da zona, e em todas elas, com mais ou menos exactidão, repetia-se o espalhafato. Um solicito empregado disposto a cativar a exigente cliente; passados mais ou menos trinta minutos o mesmo cenário de desolação, a mesma resposta com tal sorriso fingido e eu a contar mamas, como forma de distracção e a lembrar-me do meu avô materno, José Feliciano de seu nome, que embora fosse homónimo do prestigiado cantor cego porto-riquenho, tinha uma visão de ave de rapina treinada para a detecção da presa, mesmo quando esta ainda estava a mais de trinta metros. Quando tal acontecia dava-me uma ligeira cotovelada e dizia assim numa espécie de código só nosso – A trinta metros, onze horas, blusa vermelha, cabelo louro pelos ombros. Pelo tamanho do peitoril deve ser burra que se farta. Ria o meu avô a bandeira despregadas´, enquanto me abraçava, ou para ser mais verdadeiro, estrangulava, celebrando assim uma consanguínea cumplicidade, e à medida que a presa se aproximava mordia o lábio inferior num gesto de impotência de quem nasceu com genes de predador, mas que por razões óbvias se ficava pelo olhar electrizante com que brindava as suas vitimas.

Depois de calcorreadas todas as sapatarias da zona sem haver comprado qualquer par de sapatos, Julieta resolve-se pela solução que Jeremias sabia de cor e salteado e que há muito pressentia.
- Vamos regressar à primeira sapataria e comprar o primeiro par de sapatos e não quero ouvir a tua opinião, ouviste! – Ordena Julieta num misto de imperialismo e irritação por se estar a acabar o seu passatempo favorito, que passa por experimentar todos os sapatos possíveis, para adquirir invariavelmente os primeiros que experimentou e ainda por cima tentar dar-me cabo do juízo, caso não me socorresse do meu ancestral passatempo.
Chegados à Sapataria Ideal, assim se chama o estabelecimento; o caixeiro que nos atendeu horas antes revela repentinamente um maneirismo algo suspeito que me dá a entender que o sujeito afinal tem “um piquinho a azedo”, soltando alguns contidos gestos que anteriormente não denunciara, o que faz com que me ria por dentro, não pelo que penso ser a orientação sexual do vendedor, mas sim pelo caricato da situação e pelo abanar das nádegas quando se encaminhou para o armazém afim de trazer os tais sapatos trinta e oito e meio, castanhos cor de galão com pouco café e com o enfeite na ponta.
Julieta voltou a calçar os sapatos, a pedir-me opinião, coisa a que respondi com um enfadado encolher de ombros e um sopro de desagrado de quem estás prestes a rebentar.
Finalmente decide-se (como eu de resto já adivinhara!) pelos sapatos castanhos cor de galão com pouco café, coisa que repôs o sorriso na cara do vendedor.
Era já noite cerrada quando se deu o regresso a casa. Julieta estava contente com a sua tarde de compras e não se cansava de elogiar os seus mais recentes sapatos.
Nisto baixa a pala do pára-brisas, faz correr a tampa do espelho e começa a apalpar os seios que eram do tamanho de uma mão fechada em concha, volta-se para Jeremias, olhando-o fixamente nos olhos como se tivesse tido a mais brilhante das ideias e com as mãos em forma concava segurando ambas as mamas, dispara.
- O que é que tu achas se eu puser umas mamas de silicone?

Observação: Este era para ser um conto de Natal, mas acabou por resvalar para este registo. Não quis de maneira alguma ofender as mulheres, sendo antes um exercício de humor em que muitos homens se reconhecerão.
E como dizia um amigo meu quando lhe pediam a definição de mulher, este respondia – A mulher é o mais belo defeito da natureza!

Post publicado originalmente no Pulanito

- Querido vens comigo ás compras?
- Anda lá, preciso que me ajudes a escolher um novo par de sapatos.
Contrariado Jeremias apresta-se a uma daquelas secas a que o contrato matrimonial obriga. Como “o que tem de ser tem muita força” e fazendo um esforço quase sobre-humano lá abandona o quentinho do sofá, as bejecas que já começavam a fazer fila na mesinha de apoio, e o pior de tudo; o jogo entre o Barça e o Real que estava quase a começar, mas é melhor nem sequer negociar o convite, caso contrário teríamos o caldo entornado durante pelo menos quinze dias de amuo; o que significaria quinze longas noites a pão e laranjas, coisa que um homem na pujança e idade do Jeremias achava ser a pior das punições a que um ser se pode sujeitar.
Chegados à Baixa, logo deparam com a montra duma sapataria recheada de novidades onde a dificuldade maior seria eleger um de entre as centenas de pares de sapatos expostos.
Um caixeiro simpático apresta-se a não deixar fugir a cliente e atira com um treinado sorriso profissional, logo seguido do costumeiro – Posso ajudar nalguma coisa? Esteja à vontade, é só dizer!
Julieta devolve-lhe o sorriso e diz – Por acaso até pode! Tem aqueles sapatos que estão na montra com o enfeite na ponta em trinta e oito ou trinta e oito e meio, mas na versão castanho galão com pouco café?
O caixeiro afirma que sim, afasta-se e daí a pouco regressa com duas caixas na mão e o sempre presente sorriso na cara.
- Posso ajudar a calçar? – Pergunta com ar profissional e calçadeira na mão.
- Claro que sim – responde Julieta.

Eu, Jeremias que já sei o que a casa gasta, sei que vou aqui gramar um belo pedaço da minha arruinada tarde, por isso apresto-me a fazer um dos meus jogos mentais favoritos, que consiste em adivinhar pelo tamanho das mamas das mulheres que entram na sapataria, o coeficiente de inteligência do gajedo que por aqui circula como se de um formigueiro se tratasse.
O meu avô ensinou-me: mamas grandes em corpo magro, é sinal de burrice.
Quando era petiz ficávamos sentados a rir e a contar mamas, seleccionando e contabilizando aquelas que considerávamos menos dotadas de massa cinzenta em virtude do seu desproporcionado aparelho frontal.
Como o meu avô já se finou há largos anos, continuo a homenageá-lo mas agora numa versão em solitário.
Para me distrair e sempre que sou obrigado a vir ás compras, faço este jogo mental, mas agora com este modismo dos implantes de silicone, comecei a notar que havia muito mais “burras” que há cinco anos atrás.
Baseado neste estudo “quase cientifico”, chego à conclusão que tenho de abandonar o meu jogo preferido porque afinal os dados começam a estar viciados, logo as conclusões não serão as mais acertadas.

- Jeremias! Jeremias! Oh homem parece que estás na lua! Replica Julieta sem saber o que me vai na cabeça.
- Qual deles gostas mais – pergunta, mostrando-me um sapato novo em cada pé.
Neste momento pressinto que vai começar o meu calvário e procuro rememorizar o último palpite aquando da última aquisição de sapatos, de modo a apostar exactamente no sentido contrário.
Sem qualquer convicção aponto o sapato direito e digo – Gosto muito desses, ficam-te bem e com a toilette que trazes, fazem com que a tua figura fique mais esguia, mais atraente, mais apetecível – Respondo com o melhor dos sorrisos, ainda com uma réstia de esperança dela aceitar a minha escolha, pagar e ainda chegar a casa a tempo de ver metade da segunda parte do Barça – Real a que tanto queria assistir.
- E deste não gostas? – Retorquiu, avançando com o pé esquerdo em voltarete, mostrando-me os diversos ângulos do sapato, procurando mudar a minha opinião.
- Gosto! Até tive dificuldade em escolher entre um e outro. Replico, na expectativa de me safar.
- Também nunca és capaz de decidir nada. Como sempre vou ter de escolher sozinha. Nem sei porque te trouxe comigo! – Devolve Julieta visivelmente agastada com a hesitação do marido.
Depois de um comprometedor silêncio e de mais um sem número de voltas ao espelho; depois do vendedor ter perdido o sorriso, a vontade e a serenidade , Julieta descalça-se graciosamente (foi uma coisa que sempre gostei de lhe ver fazer!) e num rasgado e fingido sorriso deposita os dois sapatos em cima duma das oito caixas entretanto abertas e diz ao esmorecido funcionário.
- Muito obrigado! Anda daí Jeremias, acho que aqui não têm aquilo que procuro.
O empregado de queixo caído e de sapato numa das mãos, coçava com a outra a testa, procurando encontrar o fio à meada da amálgama de sapatos desencaixotados e desemparelhados que povoavam o chão da sapataria.
Não será necessário relatar-vos todas as restantes estações da via-sacra por que um homem passa até que a mulher se decida por que par de sapatos escolher.

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