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Dez 09

Shopping Shoes! – Parte I

- Querido vens comigo ás compras?
- Anda lá, preciso que me ajudes a escolher um novo par de sapatos.
Contrariado Jeremias apresta-se a uma daquelas secas a que o contrato matrimonial obriga. Como “o que tem de ser tem muita força” e fazendo um esforço quase sobre-humano lá abandona o quentinho do sofá, as bejecas que já começavam a fazer fila na mesinha de apoio, e o pior de tudo; o jogo entre o Barça e o Real que estava quase a começar, mas é melhor nem sequer negociar o convite, caso contrário teríamos o caldo entornado durante pelo menos quinze dias de amuo; o que significaria quinze longas noites a pão e laranjas, coisa que um homem na pujança e idade do Jeremias achava ser a pior das punições a que um ser se pode sujeitar.
Chegados à Baixa, logo deparam com a montra duma sapataria recheada de novidades onde a dificuldade maior seria eleger um de entre as centenas de pares de sapatos expostos.
Um caixeiro simpático apresta-se a não deixar fugir a cliente e atira com um treinado sorriso profissional, logo seguido do costumeiro – Posso ajudar nalguma coisa? Esteja à vontade, é só dizer!
Julieta devolve-lhe o sorriso e diz – Por acaso até pode! Tem aqueles sapatos que estão na montra com o enfeite na ponta em trinta e oito ou trinta e oito e meio, mas na versão castanho galão com pouco café?
O caixeiro afirma que sim, afasta-se e daí a pouco regressa com duas caixas na mão e o sempre presente sorriso na cara.
- Posso ajudar a calçar? – Pergunta com ar profissional e calçadeira na mão.
- Claro que sim – responde Julieta.

Eu, Jeremias que já sei o que a casa gasta, sei que vou aqui gramar um belo pedaço da minha arruinada tarde, por isso apresto-me a fazer um dos meus jogos mentais favoritos, que consiste em adivinhar pelo tamanho das mamas das mulheres que entram na sapataria, o coeficiente de inteligência do gajedo que por aqui circula como se de um formigueiro se tratasse.
O meu avô ensinou-me: mamas grandes em corpo magro, é sinal de burrice.
Quando era petiz ficávamos sentados a rir e a contar mamas, seleccionando e contabilizando aquelas que considerávamos menos dotadas de massa cinzenta em virtude do seu desproporcionado aparelho frontal.
Como o meu avô já se finou há largos anos, continuo a homenageá-lo mas agora numa versão em solitário.
Para me distrair e sempre que sou obrigado a vir ás compras, faço este jogo mental, mas agora com este modismo dos implantes de silicone, comecei a notar que havia muito mais “burras” que há cinco anos atrás.
Baseado neste estudo “quase cientifico”, chego à conclusão que tenho de abandonar o meu jogo preferido porque afinal os dados começam a estar viciados, logo as conclusões não serão as mais acertadas.

- Jeremias! Jeremias! Oh homem parece que estás na lua! Replica Julieta sem saber o que me vai na cabeça.
- Qual deles gostas mais – pergunta, mostrando-me um sapato novo em cada pé.
Neste momento pressinto que vai começar o meu calvário e procuro rememorizar o último palpite aquando da última aquisição de sapatos, de modo a apostar exactamente no sentido contrário.
Sem qualquer convicção aponto o sapato direito e digo – Gosto muito desses, ficam-te bem e com a toilette que trazes, fazem com que a tua figura fique mais esguia, mais atraente, mais apetecível – Respondo com o melhor dos sorrisos, ainda com uma réstia de esperança dela aceitar a minha escolha, pagar e ainda chegar a casa a tempo de ver metade da segunda parte do Barça – Real a que tanto queria assistir.
- E deste não gostas? – Retorquiu, avançando com o pé esquerdo em voltarete, mostrando-me os diversos ângulos do sapato, procurando mudar a minha opinião.
- Gosto! Até tive dificuldade em escolher entre um e outro. Replico, na expectativa de me safar.
- Também nunca és capaz de decidir nada. Como sempre vou ter de escolher sozinha. Nem sei porque te trouxe comigo! – Devolve Julieta visivelmente agastada com a hesitação do marido.
Depois de um comprometedor silêncio e de mais um sem número de voltas ao espelho; depois do vendedor ter perdido o sorriso, a vontade e a serenidade , Julieta descalça-se graciosamente (foi uma coisa que sempre gostei de lhe ver fazer!) e num rasgado e fingido sorriso deposita os dois sapatos em cima duma das oito caixas entretanto abertas e diz ao esmorecido funcionário.
- Muito obrigado! Anda daí Jeremias, acho que aqui não têm aquilo que procuro.
O empregado de queixo caído e de sapato numa das mãos, coçava com a outra a testa, procurando encontrar o fio à meada da amálgama de sapatos desencaixotados e desemparelhados que povoavam o chão da sapataria.
Não será necessário relatar-vos todas as restantes estações da via-sacra por que um homem passa até que a mulher se decida por que par de sapatos escolher.

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